Blog - Espaço Leboyer

05 jun 2018

Relato de Parto Cesárea humanizado – Cindy Ferrari

Com muita emoção, felicidade e sinceridade, compartilho com vocês meu relato de parto cesárea humanizado, do nascimento do meu segundo filho, Lucas. Conto sobre a gestação, sobre nosso planejamento de um parto domiciliar que acabou precisando de uma Cesárea pois Lucas estava pélvico (sentadinho).

O que me deixou mais feliz foi poder reescrever a história do meu primeiro parto, cheio de intervenções e violências obstétricas. Apesar de não ter sido o parto idealizado no início, foi um parto respeitoso e repleto de amor, e isso sim é um parto humanizado, independente da via de parto.

Espero que sirva de inspiração para mulheres que buscam um parto pleno, ou para outras mulheres que assim como eu tiveram que lidar com o parto real x o parto ideal. Pouco falamos disso hoje em dia e muitas mulheres que querem um parto natural e por qualquer motivo não conseguem, levam consigo um sentimento temporário ou permanente que é preciso lidar com carinho em respeito à nossa própria história.

O fato é que desde o resultado positivo, nossos filhos vem para nos ensinar que a maternidade é justamente isso: não temos o controle de absolutamente nada!

“Durante toda a gravidez do Lucas eu busquei refletir o que poderia fazer de diferente do parto do meu primeiro filho, Pedro. Um parto cheio de intervenções, violências obstétricas e muito diferente do nosso plano de parto, principalmente quanto às sutilezas dos acontecimentos.

Foi quando enquanto pais, decidimos viver um parto completamente diferente, no conforto do nosso lar: um parto domiciliar planejado. Tudo pronto, equipe competente e acolhedora, doula daquelas de amor à primeira vista, mas… Lucas ficou pélvico toda a gravidez (sentadinho), sendo uma contra indicação para o parto natural domiciliar. Foram meses e dias a fio tentando fazer com que Lucas virasse naturalmente, mas não aconteceu.

Tínhamos a opção de tentar uma manobra chamada Versão Cefálica Externa (virar o bebê pélvico manualmente), mas optamos por respeitar a fisiologia do meu corpo, do dele e a história do nosso parto. Passamos a olhar então para nosso plano B, uma cesárea humanizada. Conversei com a médica que acompanhou meu pré natal, falamos sobre parto cesárea humanizado e ela se mostrou super receptiva e acolheu nossos desejos.

Desde as 35 semanas de gestação tive contrações fortíssimas, e em 2 momentos achei realmente que estava em trabalho de parto, mas não. Fomos ao hospital à tôa. E nesse vai e vem de contrações e a cesárea se aproximando, de tudo, o que eu mais gostaria era que Lucas ao menos escolhesse o dia de nascer, ou seja, pelo menos entrar em trabalho de parto e fazer uma cesárea intraparto.

Foi aí que mais uma vez me redescobri e me surpreendi em minhas escolhas: eu não queria mais esperar, e sinceramente admitir isso na nossa atual sociedade requer muita coragem. Eu havia chegado no meu limite físico (dores, cansaço, pródromos exaustivos) e psicológico de aguardar os sinais dele. Eu estava realmente esgotada, então coloquei para nós uma “data limite”, que seria as 40 semanas de gestação. Agendei a cesárea para a data limite, fiz exercícios, comi tâmaras, fiz de tudo para estimular o trabalho de parto, mas nada… Lidar com todas essas frustrações e tantas mudanças de plano durante a gravidez não foi nada fácil, mas me ensinou muito.

Fui dormir na véspera do parto aliviada e ao mesmo tempo angustiada por não ter esperado mais um pouco. Naquela noite sonhei com a avó materna do Lucas, já falecida, e foi um sonho muito lindo… Ela estava serena e muito feliz de tornar-se avó novamente, me disse que tudo ficaria bem, que ela estaria o tempo todo ao nosso lado nos protegendo, que tudo daria certo no nascimento do Lucas. Me disse também que zelaria por Pedro, que ficaria longe de mim os 2 dias de recuperação na maternidade (algo que me angustiou toda a gravidez).

Foi quando acordei na madrugada, as contrações fortes começaram, entrei em trabalho de parto e quando chegamos para a cesárea de manhã, no Hospital Renascença em Campinas, eu estava com dilatação. Aquele era o dia dele! E meu coração então se acalmou. Tudo correu bem e às 09h47 do dia 12 de maio de 2018 (véspera do dia das mães), tinha meu pequeno Lucas em meus braços.

Lucas chegou tranquilo, praticamente não chorou, atento a tudo, me olhou nos olhos longamente quando colocado em meu colo assim que nasceu, em contato pele a pele. E neste nosso reencontro, me veio um sentimento infinito de gratidão. Chorei muito. Principalmente por não ter tido este momento com meu primeiro filho, que veio para o meu colo horas depois do parto.

Nosso encontro foi permitido, calmo e amoroso como deve ser o nascimento de um bebê. Lucas mamou por 2 horas, ficamos na recuperação pós anestésica, o tempo todo juntos e dali fomos para o quarto. Todos os nossos desejos do plano de parto foram respeitados: contato pele a pele, não pingar colírio, mamar na primeira hora de vida, ficar comigo o tempo todo, primeiro banho dado pelo pai 24h depois do parto e outros.

E assim, renasci, naquele 12 de maio, com o maior presente de dia das mães que uma mãe poderia desejar… Não renasci com aquele parto idealizado e tão esperado, mas com a nossa história, exatamente como ela deveria ser,  cheia de “imperfeições”, que nos ensinaram perfeitamente, ainda mais, sobre: amor, entrega, espera, doação, paciência, respeito, fé, união e gratidão. Obrigada por esta aventura e por tantas descobertas juntos filho, te amo para sempre.”

Por Cindy Ferrari

Consultora Materno Infantil, Enfermeira Pediatra pela USP, especialista em diversos cuidados para mães e bebês. Cindy Ferrari é mãe do Pedro e do Lucas, idealizadora e fundadora do Espaço Leboyer de Apoio Materno Infantil.

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